Voltava do mercado com as mãos cheias de sacolas quando encontrou o vizinho na porta do prédio.
O homem gordo de bigode farto deve ter uns quase 70, usa all star cano longo surrado, bermuda cáqui, camiseta azul e nenhum relógio.
Sem dizer palavra alguma ele abre a porta e a segura até que a menina carregada de morango e suspiro fique a salvo do lado de dentro.
- Obrigada.
Ele acena com a cabeça, boca fechada, nada de dentes.
Ela passa toda a compra pra uma só mão e aperta o botão, enquanto o vizinho fecha a porta da frente ela mantém aberto o elevador esperando ele entrar.
- Obrigado.
Ela acena com a cabeça e fica olhando para o chão. Elevador é mesmo um negócio estranho, constrange a gente sem motivo algum.
- Uma mão lava a outra.
Ele diz isso olhando metade para a menina, outra parte para o chão.
- É verdade.
Ela abre um sorriso tímido e fixa os olhos no all star jeans desbotado e mal amarrado.
- Educação.
Ele deixa a palavra solta no quadrado do elevador e continua:
- Visse o que aconteceu lá no Rio? Se as pessoas fossem educadas nada daquilo aconteceria. Você menina não se contenta com pouco, podia ser só bonita, mas não. Além disso é muito educada.
Ela ri um riso sincero, ele retribui mostando os dentes entre o bigode.
O elevador pára no 6, é o lugar dele.
- Tenha um bom dia menina.
- Você também.
A porta fecha e ela sobe mais dois andares.
quinta-feira, 16 de abril de 2009
quarta-feira, 15 de abril de 2009
quinta-feira, 9 de abril de 2009
O coelho é de chocolate
Hoje é quinta-feira e logo Páscoa.
E eu sei que ando faltando à missa, e muito, mas hoje senti que quero mais que ovos.
Decidi encarar o espírito da coisa e renascer. Renovar, mudar, aproveitar a oportunidade de rever.
Amanhã eles chegam pra me ver, mãe e Ri, carregados de carinho, afeto e saudade.
E eu vou buscá-los vazia, limpa, com espaço para guardar tudo de bom que me oferecerem.
Comigo vai só o amor. Os dois, abstrato e concreto. E juntos, um ao lado do outro carregaremos as malas e levaremos pra casa um pedação de família.
Finalmente vou contar à minha mãe sobre aquele dia, um Sábado de aleluia muitos anos atrás.
Naquele dia eu fui dormir ansiosa demais para pegar no sono e sem querer, por debaixo do cobertor furadinho, percebi que ela dava passos pequenos pra ajeitar na cestinha de papel um ovo bem grande e vermelho. Fiquei bem triste, mas não contei nada para o Ri, afinal já havia dito que Papai Noel era lenda e ele muito otimista não acreditou em uma só palavra, jurando e gritando que se ele ganhou um carrinho era porque Papai Noel trouxe, oras!
Ontem recheei a casa de ovos e bombons para esperá-los, mas não vou repetir a cena da páscoa passada, aquela em que comi um número 15 inteiro em uma só sentada, intercalando pedaço branco com preto e depois preto e branco juntos, branco mais uma vez, preto, até que sobrasse todo o papel amassado no meu colo.
Esse ano vou sentir o gosto doce do chocolate amargo, devagar, diferente.
Vou dividir todo o chocolate que costumava esconder do Ri quando a gente era pequeno.
Vou cozinhar o almoço de Domingo e deixar minha mãe sentada na cozinha com uma taça de vinho, seu cigarro light e toda nossa conversa atrasada no ar.
Nessa Páscoa quero ressurgir.
Com as mãos sujas de chocolate.
A nova Páscoa de Leticia está começando agora.
Uma Nova Páscoa para todos que passam por aqui,
Lê
E eu sei que ando faltando à missa, e muito, mas hoje senti que quero mais que ovos.
Decidi encarar o espírito da coisa e renascer. Renovar, mudar, aproveitar a oportunidade de rever.
Amanhã eles chegam pra me ver, mãe e Ri, carregados de carinho, afeto e saudade.
E eu vou buscá-los vazia, limpa, com espaço para guardar tudo de bom que me oferecerem.
Comigo vai só o amor. Os dois, abstrato e concreto. E juntos, um ao lado do outro carregaremos as malas e levaremos pra casa um pedação de família.
Finalmente vou contar à minha mãe sobre aquele dia, um Sábado de aleluia muitos anos atrás.
Naquele dia eu fui dormir ansiosa demais para pegar no sono e sem querer, por debaixo do cobertor furadinho, percebi que ela dava passos pequenos pra ajeitar na cestinha de papel um ovo bem grande e vermelho. Fiquei bem triste, mas não contei nada para o Ri, afinal já havia dito que Papai Noel era lenda e ele muito otimista não acreditou em uma só palavra, jurando e gritando que se ele ganhou um carrinho era porque Papai Noel trouxe, oras!
Ontem recheei a casa de ovos e bombons para esperá-los, mas não vou repetir a cena da páscoa passada, aquela em que comi um número 15 inteiro em uma só sentada, intercalando pedaço branco com preto e depois preto e branco juntos, branco mais uma vez, preto, até que sobrasse todo o papel amassado no meu colo.
Esse ano vou sentir o gosto doce do chocolate amargo, devagar, diferente.
Vou dividir todo o chocolate que costumava esconder do Ri quando a gente era pequeno.
Vou cozinhar o almoço de Domingo e deixar minha mãe sentada na cozinha com uma taça de vinho, seu cigarro light e toda nossa conversa atrasada no ar.
Nessa Páscoa quero ressurgir.
Com as mãos sujas de chocolate.
A nova Páscoa de Leticia está começando agora.
Uma Nova Páscoa para todos que passam por aqui,
Lê
segunda-feira, 30 de março de 2009
Passo a passo
Aquilo era a primeira coisa a ser considerada.
Sempre que conhecia alguém começava logo a analisar seus gestos e palavras, o diagnóstico era rápido, em minutos tinha, ou não, um novo amigo.
Há muito tempo não encontrava alguém que passasse pelo teste, concluiu que estava mesmo difícil estreitar laços.
Não era um problema dela, era uma coisa haver com o mundo, um desencontro de rotação, estação e horário.
Um eclipse.
Mas nunca desistiu, e sempre que ouvia um novo nome começava em silêncio sua checagem.
Conheceu gente engraçada, inteligente, animada. Mas não fez mais amigos.
Até aquele dia no bar, lá em Maringá.
Sentaram perto uma da outra e desembestaram uma conversa louca, sem freios.
Ponto, era assim que ela gostava.
E a menina era amiga dele, o que também contava.
Depois de algumas horas regadas a cerveja foram embora.
E enfim se abraçaram, e passaram muito bem pela primeira coisa a ser considerada.
Sempre que conhecia alguém começava logo a analisar seus gestos e palavras, o diagnóstico era rápido, em minutos tinha, ou não, um novo amigo.
Há muito tempo não encontrava alguém que passasse pelo teste, concluiu que estava mesmo difícil estreitar laços.
Não era um problema dela, era uma coisa haver com o mundo, um desencontro de rotação, estação e horário.
Um eclipse.
Mas nunca desistiu, e sempre que ouvia um novo nome começava em silêncio sua checagem.
Conheceu gente engraçada, inteligente, animada. Mas não fez mais amigos.
Até aquele dia no bar, lá em Maringá.
Sentaram perto uma da outra e desembestaram uma conversa louca, sem freios.
Ponto, era assim que ela gostava.
E a menina era amiga dele, o que também contava.
Depois de algumas horas regadas a cerveja foram embora.
E enfim se abraçaram, e passaram muito bem pela primeira coisa a ser considerada.
domingo, 22 de março de 2009
Era o fim no fim de tarde
Enquanto esperava a passagem da gripe deitou-se envolta por livros no tapete verde da sala, lá perto do seu pé descalço com cheiro de melissa nova uma listra de sol ia se aproximando ao mesmo tempo em que ficava estreita.
Era linda.
Ela esticou as pernas, fez um arco com o pé e tentou tocar com a ponta do dedo aquele pedaço de calor.
De repente sentiu-se feliz. Imensamente feliz.
Riu um riso solto e sincero.
Enfiou os dedos no meio dos cachos bagunçados, fungou o nariz machucado e até conseguiu respirar profundo como há dias não era capaz.
Fechou os olhos para despedir-se da gripe e percebeu que os dias não eram mais de verão.
Ficou aliviada como nunca ficara, era costume seu aproveitar o sol, ficar marrom - caramelo, e lamentar o vento frio.
Mas naquele momento estava tudo diferente, e com muita força e vontade ela quis um ventinho de inverno no rosto branco feito neve.
Era fim de tarde quando o abriu os olhos, estava esticada, com os braços pra cima da cabeça e os pés em ponta.
A listra de sol cruzava sua coxa.
Ela viu e sorriu.
Levantou num pulo para acordá-lo com um beijo sem gripe.
Deu boa tarde para o amor.
E amou-se.
Gribe
Gribada.
É assim que bai bibendo os dias.
Descongestiodante dasal, antinflabatório, pastilhas, qualquer bolinha anti-resfriado.
Atchim!
Saúde.
E dem as garfadas do beio-dia tem sabor. Um horror.
Sopa da boa antes de dorbir.
Rolos de babel higiênico levam embora tudo que sai de dentro do dariz verbelho.
Até abanhã.
Atchim!
É assim que bai bibendo os dias.
Descongestiodante dasal, antinflabatório, pastilhas, qualquer bolinha anti-resfriado.
Atchim!
Saúde.
E dem as garfadas do beio-dia tem sabor. Um horror.
Sopa da boa antes de dorbir.
Rolos de babel higiênico levam embora tudo que sai de dentro do dariz verbelho.
Até abanhã.
Atchim!
domingo, 15 de março de 2009
Beijo me liga.
Quando toca o telefone ela se liga.
Corre pra atender a mãe que liga.
Estão ligadas, uma à outra, mesmo quando desligam.
Ligam tanto uma pra outra que outra e uma já têm certeza do amor.
Infinito.
Quando toca o telefone ela desliga do resto do mundo,
E se liga na voz do outro lado:
- Oi mãe!
Corre pra atender a mãe que liga.
Estão ligadas, uma à outra, mesmo quando desligam.
Ligam tanto uma pra outra que outra e uma já têm certeza do amor.
Infinito.
Quando toca o telefone ela desliga do resto do mundo,
E se liga na voz do outro lado:
- Oi mãe!
sexta-feira, 13 de março de 2009
Tempo amigo seja legal conto contigo pela madrugada
Em sua batalha diária contra o tempo encontra tempo pra tudo:
Estudo, trabalho, casinha, e-mail, livreto, muffin e banho.
Guarda a apostila na gaveta do estoque.
Vende tudo da 13:00h à 21:00,
Põe a louça, estica a cama e pinta as unhas com creme no cabelo.
Pra ganhar tempo do tempo que corre, parou de correr.
Escreve para aquelas que ama, também com creme no cabelo.
Escreve pra si própria e chama tudo de livro. Com creme no cabelo.
Cozinha pequenos bolinhos que aos montes matam a fome deles.
Quando é perto da meia-noite toma seu banho de gata.
É o gato quem tira todo aquele creme de seu cabelo.
Dorme no resto do tempo que resta.
Antes que acabe, reza.
Estudo, trabalho, casinha, e-mail, livreto, muffin e banho.
Guarda a apostila na gaveta do estoque.
Vende tudo da 13:00h à 21:00,
Põe a louça, estica a cama e pinta as unhas com creme no cabelo.
Pra ganhar tempo do tempo que corre, parou de correr.
Escreve para aquelas que ama, também com creme no cabelo.
Escreve pra si própria e chama tudo de livro. Com creme no cabelo.
Cozinha pequenos bolinhos que aos montes matam a fome deles.
Quando é perto da meia-noite toma seu banho de gata.
É o gato quem tira todo aquele creme de seu cabelo.
Dorme no resto do tempo que resta.
Antes que acabe, reza.
quinta-feira, 12 de março de 2009
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