Acorda ressentida, magoada, fodida e não sabe ao menos explicar tamanha tristeza.
Pega o telefone, disca, espera:
- Alô, você pode me ajudar?
Pode. Sempre.
A voz do lado de lá resolve tudo o que ela não pode aguentar.
Uma injustiça, seja feita justiça.
Mas o que pode fazer senão sucumbir, deixar, permitir.
De vez enquando ela tentava crescer, ser dona do nariz e fazer tudo com as próprias mãos.
Seria uma boa idéia, assim cortava o mal pela raiz.
Mas nunca funcionou. Falhou uma, duas, três.
Fracassou 100, sem chances de vencer.
Aí no meio do fim ela lembra da voz do telefone.
Telefona e escuta o que ela diz.
Sempre firme, afirma que ela é capaz, que o mundo é ruim com todo o mundo, e que seu dia vai chegar quando ela deixar.
Ela se deixa levar.
A voz não mente. Nunca mentiu.
Chora compulsivamente, tentando parecer normal.
Pensa que a voz percebeu, mas ignora para não falar no assunto.
Assume, calar às vezes faz bem.
Aceita acreditar na poesia, no conto que diz: no final fica tudo bem.
Quando fica bem, preocupa-se com a amiga sem rosto do lado oposto.
Porque tratá-la assim? Despejar sem medida toda a dor da ferida que fez em si?
E as dores da voz? Quem ouve suas lamúrias, seus segredos, suas súplicas, seu medo?
Quem a ouve, enfim?
Discou de novo o mesmo número com as pontas dos dedos:
- Alô.
- Só queria dizer que te amo. E você, o que tem pra dizer?
...