sexta-feira, 11 de abril de 2008

Giselle - II

Depois de uns 45 minutos na fila para o estacionamento, umas duas ou três paqueradas, uns 7 Hollywoods e uns 5 Marlboro Lights, enfim as garotas entraram no show.
O salão era grande, e o bar ficava no lado oposto ao palco, assim como o banheiro e as portas de saída. Ou seja, ver a banda de perto implicava uma longa caminhada para matar a sede e eliminar o excesso de cerveja.

- Vou procurar o Daniel. Vocês vão ficar onde?

Disse Lu enquanto virava efusivamente o pescoço, de um lado para o outro, procurando seu ex-namorado.

- Na frente do palco. Na frente e no meio. No melhor lugar.

Antecipou-se Giselle enquanto a outra menina comprava as fichas de cerveja no caixa. 10 fichas. 10 para cada uma.

- Tá certo então, qualquer coisa vou lá pra achar vocês. Se acabar o show e eu não aparecer vocês podem ir embora.

Lu saiu, andando depressa, com uma latinha na mão, deixando as duas com a certeza de que iriam vê-la apenas no dia seguinte.

- Gi, esse negócio tá lotado. Você não acha melhor a gente ficar mais pra trás?
- Não! Acho melhor a gente ficar bem na frente.

As duas deram as mãos para enfrentar a multidão e cruzaram o salão de fora a fora, cada uma com duas latinhas, pra evitar perder o lugar por causa de bebiba.
Quando conseguiram chegar na frente do palco, uma corrente de seguranças entrou bem na frente delas, impedindo que ficassem apoiadas enquanto gritavam alguma coisa, ou mesmo que deixassem as latinhas descansando em cima de algum amplificador.
Enquanto resmungavam alguma coisa por causa dos empurrões, Giselle e sua amiga perceberam que eram coisa rara ali naquele lugar, a platéia era, em sua maioria, homens bêbados berrando em alto e bom som todos apelidos para vagina existentes no mundo.
Com a esperança de ficar mais pra frente (e um pouco de safadeza) Giselle se espremia contra a corrente humana, e isso colocava as mãos daqueles caras gigantes hora nos seus peitos, hora, bem, hora um pouco mais pra baixo.

- Que é isso cara! - Gi gritava indignada - Se você encostar mais uma vez essa mão em mim eu te meto a mão na cara!

E assim, enquanto riam horrores e cantavam idem, as duas amigas dançavam, bebiam e pulavam como se aquele fosse o melhor show do universo. Como se Velhas Virgens fosse a melhor banda do planeta. E como se aquele fosse o último dia de suas vidas.

Hora e meia depois, a garganta violentada das meninas pedia por uma cerveja gelada, mas antes, como de praxe, resolveram enfrentar a fila gigantesca no banheiro feminino. Enquanto se espremiam para segurar o xixi, uma garota de cabelos cor-de-rosa passou como um vento, cortando a fila toda e entrando no bnheiro que acabava de desocupar.

- Essa menina de cabelos cor-de-rosa passou na minha frente? - Giselle deu em berro que fez todas as garotas mal alinhadas concordarem com a cabeça.

- Essa BISCATE furou fila? - Ela insistia, novo gesto solidário das meninas enfileiradas.

- Eu tô aqui no último banheiro, vem me pegar! - Gritou a louca de cabelos coloridos.

Giselle saiu batendo os pés, deu um chute na porta que bateu direto na cara da menina e a derrubou sentada na patente. Enquanto socava o nariz, a testa e o lado esquerdo do rosto da furona de fila, Gi repetia, uma palavra por soco:

- Isso-é-pra-você-aprender-a-nunca-mais-furar-fila!
- Socorro! Alguém me ajuda.

A amiga ria descontroladamente. De nervoso, de orgulho, de bêbada.
As outras garotas na fila emudeceram. Ninguém deu sequer um passo.
Quando acabou a pancadaria, Gi tirou a vítima de dentro do banheiro, segurou o braço da amiga e ordenou:

- Entra, é nossa vez de mijar!
- Mas e as outras pessoas na fila?
- Vem que eu garanto.

Enquanto obedecia e fazia em gotas o xixi acumulado, a menina olhava fixamente para os dedos da vingadora, agora tão roxos que mal se percebia o quanto estavam tortos.
Saíram do banheiro e tudo que puderam notar era a fila extremamente alinhada, tal como na segunda série, quando os alunos esticavam os braços para tomar distância e fazer a fila dos sonhos das professoras.
Giselle empinou o nariz, sentindo-se orgulhosa e aliviada. O respeito (ou seria o medo?) das companheiras de banheiro era nítido. Assim como o medo da amiga de pensar o que viria depois daquela porta.

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2 comentários:

Fernanda disse...

Voce esqueceu uma coisa. Enquanto ela socava ela dizia: Isso-é- pra-voce-aprender-a-nunca-mais-furar-a-fila. E como ela ainda nao tava satisfeita com a pancadaria, ela continuou: respeita-os-otro.
rs
saudade da giselão
lê, como eu ri! Escreva mais histórias por favor! vc é muito engraçada!

Giovanni disse...

hahaha, muito boa essa história.