sábado, 5 de abril de 2008

Giselle

A lembrança que tinha da amiga não era nítida, afinal faziam alguns vários anos que não se viam.
As vezes, enquanto ouvia Zeca Baleiro, se perguntava se a cara dela ainda seria a mesma, a boca enorme chegando primeiro pra logo depois escancarar os dentes, cheia de palavras pra cuspir.
Nesses dias de saudade e curiosidade sua mente dava um play no filme, sempre aquele filme:

- Gi, não vou mais no show do Velhas Virgem.
- Como assim não vai!!! Claro que vai, a gente combinou isso há um tempão. Você vai sim!

Giselle dizia essas coisas com uma cara manchada de vermelho (de raiva) e marrom com semi-bolas acinzentadas (que adiquiriu depois de um banho de sol exagerado no quintal da velha). Estava realmente nervosa. Mas a menina achou que pudesse explicar a situação, quem sabe ela não entenderia:

- Gi (com muita, muita calma)o Rô está doente, pegou uma gripe muito forte, acho que eu deveria ficar com ele, fazer um chá sei lá, pra ver se ele melhora...

Mas antes que terminasse o discurso, Giselle explodiu em gritos:

- Ele que vá pra casa da mãe dele! Você combinou comigo, você vai comigo! Não quero nem saber!

Bateu a porta do banheiro e ligou o chuveiro. Junto com o barulho da água era possível ouvir os socos de Giselle na parede.

(...)

- Vai se arrumar, senão a gente chega atrasada.

Bastou a menina olhar para os dedos de Giselle para correr pro quarto e vestir uma roupa. Qualquer roupa. Era melhor sair dali, logo. Giselle tinha socado tanto a parede do banheiro que seus dedos envergaram, parecendo vagens guardadas meses na geladeira. No azulejo do meio, na parede do registro, um pequeno trincado provava a força de seus braços com muque de carregar caixa de produtos ortodônticos.

- Tá pronta?

Perguntou Gi com um riso forçado.

- Tô.

Dava pra pegar no ar o medo da garota. Mas Gi fez que não percebeu.

- Então vamo embora - Ela disse, enfática, enquanto botava na boca mais um Hollywood vermelho, daqueles que costumavam deixar seus dedos sempre amarelos.
- Gi, na boa, faz pouquíssimo tempo que eu peguei o carro, tenho medo de ir até lá, tem que pegar rodovia, e depois a gente vai voltar mamada, e eu enxergo super mal no escuro...

Mas antes que terminasse a ladainha, olhou fixamente para os dedos tortos que começavam a roxear.

- Ah, num dá nada, uma hora tem que passar o medo né. Vamo aí.

Lu também ia com elas, e estava ali, pronta. Mas Lu era assim, existia mas não aparecia. Vez ou outra a dava pra perceber o barulhinho da lixa de unhas, Lu sentava no braço do sofá com os pés guardados nas pantufas de tecido, e gastava um pouco de seu tempo deixando o formato das unhas perfeitos.

Entraram no carro preto, as três. O coração ainda batia acelerado quando o dedo amarelo de Giselle ligou o som. Foram gritando palavrões ritmados até chegarem na fila para entrar no estacionamento do show.

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1 comentário:

Fernanda disse...

nossá...
se eu disser que passou um filme na minha cabeça... e sabe o que eu fui assistir?
o dia em que vc parou no aspen para comprar o cd da banda e eu fiquei te esperando no carro junto com a "Roberta Close" maringaense.
eita...
quanto historia
:)
saudade
conta no email a historia do casório.
vai ficar difil entrar no msn agora de tarde
bj
te amo